sábado, março 24, 2007

Just keep trying, it’s just a matter of timing.


Cinco segundos antes, arrependeu-se. O seu pé preguiçoso estendeu-se e alcançou a vida novamente. Travou a fundo em cima do risco, e, cobardemente, fechou os olhos, num medo nunca antes sentido. Quando viu de novo o mundo, descobriu-se vivo. Não soube se devia rir ou chorar, por isso limitou-se a jazer sobre a poeira dos pneus alemães, recostando-se no seu banco alargado pelo tempo.
Não soube explicar a travagem súbita. Quando tinha premeditado aquilo trinta vezes seguidas sem cessar, de sorriso nos lábios. Estúpido.
Acendeu nervosamente um cigarro e abriu a janela, inspirando o ar da noite muda. Acalmou-se um pouco, suspirou longamente, e ligou o carro.
“Talvez para a próxima”, pensou, e varreu a noite com os faróis acesos, avançando em marcha lenta estrada fora.

domingo, março 11, 2007

volta depressa, por favor.


Tinha chegado a hora. Tremendo por detrás dos seus óculos de sol, com dezenas de olhos cravados em si, apertou a pequena caixinha de madeira contra o seu peito. Toda a sua vida estava ali. A sua razão de respirar ainda e sempre cada sopro de ar. Temia engasgar-se, agora, sucumbindo às agruras da existência, perecendo sobre o sol dourado daquele dia de primavera e caindo daquela colina verde sobre o mar sereno.
Nas suas costas, uma pequena multidão negra aquietava-se, aguardando o culminar da cerimónia, cegando debaixo da luz do sol
Alguém tossicou levemente. Ela acordou do seu torpor de inércia, ergueu sua face para o alto e respirou fundo. Depois, calmamente, abriu a sua caixa preciosa. Por um momento pareceu vacilar, mas recompôs-se. Pegou num punhado de cinzas, e pousou-o no vento, num gesto enérgico e elegante.
Observou as cinzas esvaindo-se no ar, levadas pelo vento até à linha do horizonte daquele mar tão perfeito. Extasiada, alcançou punhados e punhados de cinzas, e, num último sorriso, pegou na caixa e despejou tudo nas asas da ventania.
Nunca se sentira tão triste e tão feliz como naquele momento. Chorou no meio do maior sorriso de sempre, observando a paisagem que ela escolhera. Perfeita, claro. E por isso mesmo a sua tristeza acabou por se desvanecer. Iria morrer de tédio sem ela, mas sentia-a onde queria, levada para sempre pelas correntes, sendo livre e solta de tudo. Estava entregue ao seu destino.
Olhou uma última vez o pôr-do-sol, numa despedida derradeira que demorou largos minutos. Por fim, virou-se e encarou a multidão.
- Vamos?,
e avançou resoluta pelo meio deles, de sorriso em punho e lágrima escondida atrás das lentes.

sábado, fevereiro 24, 2007

dancing in the moonlight.


No meio da turba, destacavam-se na escuridão, dançando lentamente o ritmo das suas almas. Enlaçados, parados no tempo, rostos extasiados, envolvendo-se um no outro num abraço. Como num sonho. De olhos fechados, descobriram-se sem que mais ninguém se apercebesse, no meio da multidão excitada que pululava sem descanso, indiferente.
De vez em quando olhavam-se nos olhos. E brilhavam como duas estrelas, confundindo-se com os relâmpagos epilépticos da multidão. Depois voltavam a agarrar-se, com força e pujança, para que aquele momento ou a memória dele nunca saísse disparada numa correria desenfreada e permanecesse imóvel e imutável para sempre.


Para sempre... tudo é eterno enquanto dura!

sábado, fevereiro 03, 2007

why do all good things come to an end?

Tinham sido dias de sol. Eternamente douraram sob a luz do dia, óculos de sol e roupas largas e claras, jazendo na relva. De mão dada. Sempre. Quem lhes dera ficar ali até ao fim da vida. Sem se mexerem, olhando alternadamente o céu imaculadamente azul e a tez perfeita de cada um. Mas não. O mundo não funciona assim. Um dia zangaram-se, atiraram estalos e palavras um ao outro, raivas absurdas que jamais pensaram sentir. O sol acabou, agora a chuva, penosa e molhada, sem sentimentos. De testa colada no vidro, olhos castanhos expressivos, abatidos no chão triste, observavam, sem saber, o mesmo rio de roupas escuras e cinzentas, fazendo suas as lágrimas do céu.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

may be.


Deitada na sua cama, abafada nas mantas, permanecia parada, pensativa.
Fora naquele dia que tudo começara verdadeiramente. Aquele carro, aquela música. Outrora com um constante medo da vida, e sem nunca saber o que fazer a seguir, suspirou e fez-se à estrada, chorando copiosamente. Abrira a janela de par em par e os seus cabelos flamejantes ao vento deixaram-se ir, livres e brilhantes, resistentes a tudo.
Toda a sua vida se surgiu perante si, como um filme que jamais alguém ousara cortar. Uma vivência de um só take, observada, inóspita, feliz, amargurada e resignada. Uma mistura ambivalente de sentimentos que agora sentia serem parte da vida, estrada que foi desbravando aos poucos.
Fora perdendo aqueles que jamais a tinham perdido. Revolta inicial, decerto. Anos e anos sem saber o que fazer, bradando aos ventos, levantando as mãos para o alto, sem consolo que a erguesse da letargia que insistia em alheá-la do mundo dos vivos. Mas percebia agora, na calma da sua idade, todo o significado de uma vida: a morte. Ela estava sempre aguardando, cajado na mão para não se cansar e barrete na cabeça para passar despercebida. Não adiantava gritar-lhe, tentar evitá-la ou afogá-la em lágrimas de dor por quem perecera perante a Força. The show must go on. O Verdadeiro Caminho estava noutra direcção, produzir algo de útil enquanto não fechávamos os olhos e nos calávamos para sempre, mudos de espanto. Se não útil para os outros, pelo menos útil para nós, que nos realizasse e deixasse viver de queixo erguido e passada decidida e demolidora. Uns têm mais tempo, outros extinguem-se ao virar da esquina, tropeçando na velha senhora. Mas todos tentavam aproveitar e queimaram-se alegremente, tal como ela, porque sem queimaduras, como sabemos que estamos vivos?
Tentou remexer-se mais uma vez, mas não foi capaz, e, num último suspiro de vida, sorriu com os olhos, docilmente, fechando-os depois para sempre, que o caminho fora longo e as saudades de quem tinha perdido estrada inóspita fora eram mais que muitas.

sábado, janeiro 06, 2007

toma.

Why do I even give a fuck to what that shit head has to say? She's got no friends and no life, just plenty of cash to spend and a list of people that she uses at her own will. Next time she cries like that, i'll sit on her face until she dies. Get a life!, ou em bom portugues, VAI-TE FODER.

(suspiro.)

terça-feira, janeiro 02, 2007

wish i was there.


Tropecei alegremente em direcção à janela, mar na cabeça e calor no coração. Vidro escancarado, pézinho lá fora, e nada de relva. Olhos abertos: esbarrei no prédio em frente. Fuck.

O que vale é que tu tentaste pôr o cinto no autocarro. Não, não sou o único.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Baskerville Walsh.

Durante anos ninguém se lembrou que existia. Desde que caíra daquele prédio, mergulhado na mais pura letargia alucinogénica, até se esvair em cinzas, sempre um desprezo do mais puro que existe.
A princípio entristeceu-se, sim. Pensou em adormecer para sempre, fundir-se com o ar e desaparecer com o vento do Norte. Depois chegou quase a habituar-se. Não hábito de não ficar magoado, mas hábito de lhe ser indiferente. Para quê chatear-se? Vivia na margem, e nunca ninguém lhe reconheceria mérito. Mais valia passar a eternidade em descanso e sem sonhar com mundos e fundos inalcançáveis à sua metáfora de pessoa.
Um dia, no entanto, e contra todas as possibilidades, alguém precisou da sua ajuda. Alguém precisou dele. Nem queria acreditar quando F. se aproximou, intrigado, e pegou em si, espalhando-o falsamente naquele sítio. Sentiu-se extasiado. E encontrou finalmente uma razão para ‘viver’. Não que esperasse que mais alguém precisasse de ajuda. Claro que não, era impossível. Mas ao menos já ajudara outrém, marcara uma vida. E isso seria coisa que nunca iria esquecer.

terça-feira, dezembro 26, 2006

domingo, dezembro 17, 2006

sam.

Correu tao rápido quanto conseguiu. Virou a esquina, entrou no elevador no último minuto. Sentiu que não aguentava. Quando as portas se fecharam com um barulho cortante, chorou. Debulhou-se em lágrimas estúpidas e irracionais. Encostou-se ao aço frio, arrepiou-se. E verteu mais uma lágrima, que, obesa, escorreu lentamente pela bochecha e abateu-se brutamente contra o chão. Escorregou pela parede, cara enfiada nas mãos.
De súbito, ergueu-se. Ajeitou o cabelo, limpou a cara, e sorriu. Pronto. Já tinha passado.
As portas abriram-se novamente, no rés-do-chão; sorridente, e de altivez em punho, avançou pelo átrio, desaparecendo na luz do meio-dia.

sábado, dezembro 02, 2006

the cost of living.


"I ask for no forgiveness, Father, for I have not sinned. I have only done what i needed to do to survive. A small boy once asked me if I was a bad man. If I could answer him now, I would tell him that when I was a young boy, I killed a man to save my brother's life. I am not sorry for this. I did not ask for the life that I was given, but it was given, nonetheless, and with it I did my best."

domingo, outubro 15, 2006

oh no, what's this?

Subiu a escada a correr e tentou abrir aquela porta, cúmplice de tantas entradas furtivas. Fechada. Em vão a abanou com todas as suas forças. Tomou balanço e atirou com a porta casa adentro, sem dó nem piedade. Correu pelo apartamento, os seus passos soando almariados no soalho de madeira. Empurrou com estrépito e abateu-se de súbito. A cama. Vazia.
Gritou. Esperneou. Voltou a gritar. Bateu com fúria os punhos no chão, magoou-se. Depois deixou-se ficar, gemendo a sua mágoa, naquele sítio que vira os seus momentos de glória e êxtase. Nunca mais.

Foi então que, num ronco suspirado, acordou, encharcado no seu próprio suor. Repirava ruidosamente. Olhou para o lado, e descansou a sua aflição. Ela estava ali, repousando suavemente, respirando sem ruído.
Levantou-se e caminhou com leveza até à varanda. Respirou o ar da noite, acalmou-se e espirrou no silêncio do Largo. Voltou então para dentro, fechando cuidadosamente a janela. Subiu para a larga cama e aninhou-se. Depois abraçou-a.
Ela mexeu-se lentamente, encostou-se. E ele chorou, lágrimas a cair-lhe quatro a quatro pela cara rugosa.
É horrível termos o que queremos.
"Porque é aí que temos alguma coisa para perder", e soprou, amedrontado.

sábado, outubro 07, 2006

hmm.

"É liberdade pr'aqui, é liberdade pr'ali. Toda a gente diz, toda a gente quer. Mas querendo ou não, ninguém lhe dá a mão, e todos querem a prisão de uma mulher. É tudo fruto da nossa natureza, e quem não é a sua negação. O diabo chegou e humildemente a deus falou: não somos Eva nem Adão. O amor é isto; o amor é isto e nada mais!"

sexta-feira, setembro 22, 2006

Did my heart love till now?

"Forswear it, sight. For i never saw true beauty till this night."

despite all my rage...



... would you please disarm me?

sábado, setembro 16, 2006

Num instante diminuto, tudo me volta à memória. As sirenes, os gritos, os vultos, tudo numa revolta de movimentos de quem vê mas não sabe o que vê porque não sabe o que se passa nem porque se passa. Barulhos infernais que me atordoam o intimo, a vontade de perguntar o que aconteceu mas a incapacidade de balbuciar um único som salvador. E apenas um pensamento...: Mariana.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Vida.


"Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, mas como reacção contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir a minha mesquinhez, que passo por prudente por ser pessimista, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que não se saiba que pouco me importa o tempo alheio. Descobri, por fim, que o amor não é um estado de alma mas um signo do zodíaco."

domingo, julho 16, 2006

who knew!

Your Luck Quotient: 76%

You have a high luck quotient.
More often than not, you've felt very lucky in your life.
You may be randomly lucky, but it's probably more than that.
Optimistic and open minded, you take advantage of all the luck that comes your way.


yeah, right.

quinta-feira, julho 13, 2006

Dice.


"nothing can compare to when you roll the dice and swear you love's for me."

domingo, julho 09, 2006

Gosto muito.


"Dos mortos só se diz bem!", diria Zézinha.
O que Zézinha não sabia, na sua inocência de seguradora cinquentenária, é que havia mortos que continuavam vivos, e que a terra apenas se lhe comera os olhos em algumas mentes insaciadas de liberdade e justiça. E que havia mortos que se matavam a si próprios, desvaneciam-se alegremente no pensamento, pululando para recantos escondidos. E o que Zézinha não almejava também é que muitos mortos ressuscitavam de repente, para suscitar a discussão entre os vivos, morrendo novamente logo de seguida. E que muitos vivos desejavam que muitos mortos continuassem mortos e enterrados na areia escura no cérebro, segunda porta à esquerda no corredor de portas brancas.
Caramba, Zézinha, já tinhas idade para saber da vida.